domingo, 13 de janeiro de 2013
Dia de Reis
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Quinta da Nora I
Se tivéssemos galo, não cantava pois mesmo estando uma noite agradável de uma habitual insuportável temperatura que nos fazia procurar o chão de marmorite para maiores alívios, ainda estava escuro como o breu.
Não me recordo de ter dificuldades em acordar mas acredito que tal não acontecia até chegarmos a Samões…
Na carrinha Peugeot cinzenta, amontoados na traseira, entre sacas de serapilheira, aproveitávamos para repor um pouco desse sono mal dormido, embalados pelo piso saltitante e as curvas intermináveis que se agravavam na subida da N.ª S.rª da Assunção. Era sinal que pouco faltava...
Chegávamos quando o Sol começava a despontar. Um sol nascido numa penumbra tingida de laranja e aquela primeira visão que revelava um Zé do Carmo, erecto e impaciente, com a responsabilidade da jornada no olhar carregado.
O lavrador toca a mula com insultos pitorescos, exigindo àquela “alma de canastro velho” a força que ela já tivera noutros tempos, comprometendo rivalidades com recentes mas pouco agradáveis tractores…
O rasgar da terra e …batatas, tantas batatas, as cestas, os sacos e pó, tanto pó e o brilho. O brilho da terra, o brilho do nosso olhar e finalmente o sorriso do Zé do Carmo, a permanente tensão da Mamã e a bonomia descontraída do Papá. E o pó que só a água da Nora acalmava, justificando o reconhecimento do nome: Quinta da Nora.
E o cansaço, e o peso, e as cestas e as sacas e a virilidade nervosa do momento das cargas, e o crescente torpor que uma insuportável temperatura de Julho fazia levar a melhor.
No velho cabanal as lonas misturadas com a palha afagavam uma bem merecida sesta, farta e ociosa de guisados e assados e de convívios numa mesa de amizade e cumplicidade e alguma distância cultural.
A segunda volta sem outra pressão que não fosse o desejo do regresso.
O regresso com as ocasionais paragens nas Latadas e a libertação do pó...e a alegria, com a voz de tenor do Papá e malícia inocente de canções que nunca mais esqueceremos.
E o cansaço que não nos impedia de gritar refrões e ensaiar variantes.
E o cansaço que não impedia ainda um passeio apressado pelas Festas de Mirandela…
Não me lembro do esforço, só me lembro das cores, dos aromas e de nós…não é curioso?