PIALBRAS
Reminiscências de um tempo em que tudo parecia simples e convidativo...
sábado, 1 de abril de 2017
Hoje estou mais triste e desiludida do que algum dia estive. Sinto-me órfã! De pai, mãe e até família. Há até momentos em que duvido das minhas memórias. Houve mesmo um tempo assim??
Choro os meus pais que sei foram duas pessoas de alma NOBRE... Que como a minha mãe tantas vezes disse "olhavam para cima, para o Céu!"
Vou passar para aqui o registo do que me vou lembrando, tal como pensei quando criei este blogue. Começo com um texto escrito pela minha mãe e que eu li no funeral dela.
"Junho 2012
Parece que já passou muito tempo desde aquela dat em que acreditava nos sonhos. E, perto, os sonhos em rosas com espinhos se transformaram e essas horas maravilhosas bem amaras se tornaram.
Não quero dar agora as minha queixas e, como sou mulher de fé, vou pensar e dizer que se Deus me conserva viva é porque ainda tenho tarefas a cumprir.
Hoje a minha pobre mão já não tem a mesma força de outrora mas a alma ainda está viva e com vontade de gritar alto que Deus tudo prevê e determina e é por isso que eu estou aqui.
Não me canso de louvar o nosso Amigo celeste e de cantar a sua grandeza.
Obrigado, Senhor, obrigado, obrigado!"
Possa Deus acalmar a minha revolta e ajudar-me a compreender!
domingo, 13 de janeiro de 2013
Dia de Reis
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Quinta da Nora I
Se tivéssemos galo, não cantava pois mesmo estando uma noite agradável de uma habitual insuportável temperatura que nos fazia procurar o chão de marmorite para maiores alívios, ainda estava escuro como o breu.
Não me recordo de ter dificuldades em acordar mas acredito que tal não acontecia até chegarmos a Samões…
Na carrinha Peugeot cinzenta, amontoados na traseira, entre sacas de serapilheira, aproveitávamos para repor um pouco desse sono mal dormido, embalados pelo piso saltitante e as curvas intermináveis que se agravavam na subida da N.ª S.rª da Assunção. Era sinal que pouco faltava...
Chegávamos quando o Sol começava a despontar. Um sol nascido numa penumbra tingida de laranja e aquela primeira visão que revelava um Zé do Carmo, erecto e impaciente, com a responsabilidade da jornada no olhar carregado.
O lavrador toca a mula com insultos pitorescos, exigindo àquela “alma de canastro velho” a força que ela já tivera noutros tempos, comprometendo rivalidades com recentes mas pouco agradáveis tractores…
O rasgar da terra e …batatas, tantas batatas, as cestas, os sacos e pó, tanto pó e o brilho. O brilho da terra, o brilho do nosso olhar e finalmente o sorriso do Zé do Carmo, a permanente tensão da Mamã e a bonomia descontraída do Papá. E o pó que só a água da Nora acalmava, justificando o reconhecimento do nome: Quinta da Nora.
E o cansaço, e o peso, e as cestas e as sacas e a virilidade nervosa do momento das cargas, e o crescente torpor que uma insuportável temperatura de Julho fazia levar a melhor.
No velho cabanal as lonas misturadas com a palha afagavam uma bem merecida sesta, farta e ociosa de guisados e assados e de convívios numa mesa de amizade e cumplicidade e alguma distância cultural.
A segunda volta sem outra pressão que não fosse o desejo do regresso.
O regresso com as ocasionais paragens nas Latadas e a libertação do pó...e a alegria, com a voz de tenor do Papá e malícia inocente de canções que nunca mais esqueceremos.
E o cansaço que não nos impedia de gritar refrões e ensaiar variantes.
E o cansaço que não impedia ainda um passeio apressado pelas Festas de Mirandela…
Não me lembro do esforço, só me lembro das cores, dos aromas e de nós…não é curioso?