terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Muito se cantou esta música


http://www.youtube.com/watch?v=CxMOByRYbsY&feature=related
O futuro que morreu no passado


Vivi a minha infancia num local recôndito de Trás-os-Montes  e  acompanhei o crescimento de um projecto de desenvolvimento rural que apesar de todos os projectos europeus actuais ainda é uma experiência sem paralelo.
Surgiu do nada… Ou melhor foi sonhado por 1 homem que por ele e com ele morreu.
A associação e emparcelamento dos pequenos proprietários, dedicação a uma só cultura que tornasse mais rentável a sua produção, o controlo da transformação e comercialização desses produtos foi posta em prática e funcionou durante 2 décadas no coração transmontano.
Estou a falar da Federação dos Grémios do Nordeste Transmontano localizada no Cachão próximo de Mirandela.
Os críticos alegam que não era governável. Talvez tenha faltado a gestão empresarial e o marketing de que tanto se fala, a projecção para fora. Mas os tempos eram de orgulhosamente sós e depois só houve terra queimada e destruição da agricultura enquanto actividade económica. Não havendo uma organização de escoamento de produção não há actividade empresarial.
Os produtores agrícolas associados em cooperativas que recolhiam as colheitas e as faziam chegar á unidade de produção onde eram transformados e embalados com a marca NORDESTE  mais tarde foram copiadas por marcas com implantação Nacional como a Frissumo e a COMPAL. Compravam-se produtos agrícolas na terra fria (a castanha), no Alentejo (o tomate, o pimento), no Fundão (a cereja) para colmatar o que não era produzido nesta região.
Lagar de azeite, expurgo e embalamento de frutos secos: amêndoas, nozes, castanhas. Frutos Preparados: azeitonas de conserva, recheadas com amêndoa e pimento, pickles, compotas variadas. Destilaria de vinhos. Fábrica de lavagem e preparação de lã. Queijaria.
Tudo apoiado por uma central de vapor, oficinas e apoio administrativo. Uma frota de camiões com o logótipo.
E como as unidades de transformação precisavam de operários foi construído um bairro social para os alojar e as respectivas famílias casas com arquitectura simples de 2 tipos apenas: T2 ou T3. Construíram-se escolas, infantários e locais de convívio, uma igreja dedicada ao Santo Isidro padroeiro dos agricultores.
Uma aldeia surgiu em socalcos num descampado desértico á beira do rio Tua.

Serões ...

Durante o Inverno frio e enevoado habitualmente fazíamos serão á volta da mesa redonda com braseira. Após o jantar via-se o programa de televisão e usufruía-se da companhia dos vizinhos que invariavelmente apareciam: o Sr. Hernâni sozinho ou com a família, o Sr. Pires, o Chico Teixeira.
A conversa fluía sobre o dia-a-dia de cada um e nós, os mais novos, integrávamos, até certa altura pois a hora de deitar foi sempre rigorosa! esta partilha de vida.
Não tenho memória de haver assuntos tabu nem conversas em calão ou palavrões. Havia discussões acaloradas até porque os intervenientes eram apaixonados na defesa das suas ideias, falava-se de livros, de canções, do que acontecia nas fábricas, as dificuldades financeiras ou outras e contavam-se muitas histórias do papá na escola agrícola com o Tio João e o Sr. Hernâni, umas de rir outras menos, dos contrabandistas no Gerês vividas pelos nossos avós guardas-fiscais no tempo da 2ª guerra, do Chico na guerra colonial … Embalados pelo barulho das agulhas de tricô da mamã que atingiam uma velocidade estonteante e nunca igualada enquanto a camisola tomava forma ia metendo a sua colherada ajudando a pintar o quadro que nos era descrito… Por vezes ela ia á cozinha e voltava com figos secos, amêndoas e nozes, um licor caseiro, só acessível aos adultos, para acompanhar. Era o delírio.
O ambiente era mágico e fica na memória de uma infância a sensação cálida de protecção e aconchego e o sentimento de amor e amizade irrepetíveis.


Era uma vez Bichaninha Bichaneca ...

… Uma noite enevoada de Novembro depois do jantar saí á rua para despejar o lixo, tarefa muito discutida e devidamente repartida entre mim e os meus irmãos, reparei, ao atravessar a rua, num vulto que se escapuliu debaixo do caixote quando me aproximei. Sem medo lentamente baixei-me e vi um gatinho tricolor com os olhos enormes a fixar-me muito assustado. Chamei-o: biche… biche… bichaninho… Nada. Nem se mexeu. Repeti a chamada … Nada. Voltei a casa e fui buscar disfarçadamente algumas sobras de comida que a minha Mãe tinha no frigorífico e saí  para o nevoeiro gélido. Deixei a comida próximo do caixote do lixo num local com mais luz e recuei para o portão de casa… Pé ante pé, cautelosamente, o gatinho procurou a comida e vorazmente engoliu tudo o que lhe tinha deixado. Repeti biche…biche…bichaninho e pernas para que te quero.
 Ora bolas! pensei  frustrada, deve ser selvagem e está cheio de fome.
No dia seguinte para grande espanto da minha mãe e irmãos prontifiquei me para despejar o lixo e á socapa levei um petisco para o gatito. Não o vi...
 Deixei a comida no mesmo lugar e recuei até ao portão onde fiquei á espera. Pouco tempo depois muito desconfiado lá vem ele e novamente come tudo com ganância. E eu biche…biche…bichaninho. Olhou em volta fixou-me e eu quieta biche…biche… biche...bichaninho e voltei para casa. Durante dias desse Novembro frio repeti a cena até não fugir quando me ouvia e estar á minha espera para comer. Mas aproximar me não era fácil ficava sempre muito desconfiado, escondia-se e eu já estava a desesperar de lhe conseguir fazer festas. Mudei de estratégia em vez de ir ter com ele comecei a colocar a comida mais perto do local em que eu estava até ficarmos muito próximos e um dia finalmente ao virar costas para voltar para casa ele seguiu-me  e por lá ficou durante 12 anos. Era uma gata com o focinho branco um olho amarelo e outro preto com o corpo todo às malhas e os olhos verdes mais brilhantes que eu já conheci, chamei-lhe Bichaninha Bichaneca e foi protagonista de imensas histórias da minha família.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Quinta da Nora I

Se tivéssemos galo, não cantava pois mesmo estando uma noite agradável de uma habitual insuportável temperatura que nos fazia procurar o chão de marmorite para maiores alívios, ainda estava escuro como o breu.

Não me recordo de ter dificuldades em acordar mas acredito que tal não acontecia até chegarmos a Samões…

Na carrinha Peugeot cinzenta, amontoados na traseira, entre sacas de serapilheira, aproveitávamos para repor um pouco desse sono mal dormido, embalados pelo piso saltitante e as curvas intermináveis que se agravavam na subida da N.ª S.rª da Assunção. Era sinal que pouco faltava...

Chegávamos quando o Sol começava a despontar. Um sol nascido numa penumbra tingida de laranja e aquela primeira visão que revelava um Zé do Carmo, erecto e impaciente, com a responsabilidade da jornada no olhar carregado.

O lavrador toca a mula com insultos pitorescos, exigindo àquela “alma de canastro velho” a força que ela já tivera noutros tempos, comprometendo rivalidades com recentes mas pouco agradáveis tractores…

O rasgar da terra e …batatas, tantas batatas, as cestas, os sacos e pó, tanto pó e o brilho. O brilho da terra, o brilho do nosso olhar e finalmente o sorriso do Zé do Carmo, a permanente tensão da Mamã e a bonomia descontraída do Papá. E o pó que só a água da Nora acalmava, justificando o reconhecimento do nome: Quinta da Nora.

E o cansaço, e o peso, e as cestas e as sacas e a virilidade nervosa do momento das cargas, e o crescente torpor que uma insuportável temperatura de Julho fazia levar a melhor.

No velho cabanal as lonas misturadas com a palha afagavam uma bem merecida sesta, farta e ociosa de guisados e assados e de convívios numa mesa de amizade e cumplicidade e alguma distância cultural.

A segunda volta sem outra pressão que não fosse o desejo do regresso.

O regresso com as ocasionais paragens nas Latadas e a libertação do pó...e a alegria, com a voz de tenor do Papá e malícia inocente de canções que nunca mais esqueceremos.

E o cansaço que não nos impedia de gritar refrões e ensaiar variantes.

E o cansaço que não impedia ainda um passeio apressado pelas Festas de Mirandela…

Não me lembro do esforço, só me lembro das cores, dos aromas e de nós…não é curioso?

domingo, 24 de julho de 2011

THE TOWER

Para matar saudades!




Porque nasceu este blog?

Somos três.
Três irmãos criados num tempo em que a televisão era escassa e os computadores e consolas de vídeojogos eram uma miragem. Tivemos tempo para brincar na rua com os amigos… para cantar até a garganta nos doer… para ouvir contar as aventuras vividas pelos nossos pais…
Foi um tempo de inocência e alegria.
Fomos crescendo, de crianças felizes a adolescentes sem grandes complicações.
Hoje somos adultos cheios de responsabilidades. As solicitações são muitas e a vida tem deixado as suas marcas.
Nas poucas ocasiões em que nos juntamos sobra a saudade daqueles tempos vividos numa sala de cave humilde onde a certeza do amor nos confortava.
Que este blogue seja um espaço de partilha onde fiquem registadas as nossas lembranças, as histórias que fizeram de nós o que hoje somos, as experiências que não temos hipóteses de partilhar e que, sobretudo, constitua um testemunho da história da nossa família.